dos amores em dimensões

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Estávamos deitadas, de luz apagada, ora cabeça no peito pra ouvir o coração que insiste em bater acelerado, ora nariz com nariz pra sentir o cheiro bom que é tão bom que parece até o cheiro de terra molhada quando chove depois de um dia bem quente.

É como se fossem camadas, sabe? O que cabe numa camada do coração não interfere na outra não.  O coração não é tomado por uma única dimensão de sentimento, como um todo. São dimensões. Assim como a nossa relação: isso aqui é uma das dimensões dela.

Depois, gargalhadas, carinhos, calor, conversa sobre ciúmes e uns beijos de boa noite.

Eu, com meu pouco tamanho, não sabia que dava pra amar assim. Já tinha ouvido falar, já tinha visto mas sentido? Não, é muita terra nesse mapa astral pra dar conta de algo tão grandioso.
O curioso, ou interessante, é que a explicação das camadas entrou em mim como dimensões. Eu, com meu pouco tamanho, fui entendendo como é grandioso amar assim.
Talvez não seja pra mim: é preciso ser muito grande e eu tenho pouco tamanho, era o que eu pensava. Mas, talvez seja pra mim sim, que tenho pouco tamanho mas sei amar grandioso.
Ainda que seja rápido, ainda que acabe logo, ainda que não caminhe tão pra frente quanto se deseja, são tantas dimensões…a de olhar no olho, a de não olhar também, a de sumir, a de aparecer, a de se fechar, a de abrir, a de rir, a de chorar. A de poder ser quem se é ainda que tenha aquela dimensão que ninguém conhece ou as que permitimos que os outros conheçam conforme queremos. A de saber que essa dimensão também pode passar.
É que na verdade tem a dimensão também do querer ficar deitada, de luz apagada, ora cabeça no peito pra ouvir o coração que insiste em bater acelerado, ora nariz com nariz pra sentir o cheiro bom que é tão bom que parece até o cheiro de terra molhada quando chove depois de um dia bem quente.
No fim das contas, a gente não consegue medir o amor. É tanto e há tanto…

“Eu quero me esconder debaixo dessa sua saia
pra fugir do mundo

pretendo também me embrenhar no emaranhado
desses seus cabelos

preciso transfundir teu sangue pro meu coração
que é tão vagabundo.”

Terminou de escrever, dobrou o papel e deixou embaixo do travesseiro dela “espero que ela veja”, pensou.
Antes de fechar a porta, olhou pra ela e disse em silêncio: “ainda bem que essa dimensão está sendo com você.”

 

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doze de abril

Aaaah! Além do além-mar!

Saudades de te abraçar…

Saudades de te beijar.

 

Aaaah! Além do além-mar!
Saudades de te ter em meus braços  e te mostrar que ali é o seu lar.

 

Ah! Além do além-mar!

Saudades de te venerar

Para que assim você pudesse se encontrar

E se olhar

Para, enfim, perceber que você não é daqui, é de lá.

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Cá estou em desespero. Não sei se estou pelo caminho certo. A insegurança domina cada célula do meu corpo. Olho para o lado e vejo você. Seu olhar diz o tempo inteiro: Vai! Você consegue! Eu não consigo internalizar essa mensagem. Meu corpo está bloqueado. Eu olho para o outro lado e vejo os olhares curiosos por nossas tonalidades. Não é a primeira vez que percebo isso. Outro dia, em um de nossos encontros vi alguém nos observando. Eu sei, isso é só nosso. O que a gente sente importa só pra gente e pra mais ninguém. Um barulho vem, é o carrinho de livros. O lugar inteiro tem vestígios de mofo. Eu não poderia imaginar, nem nos meus mais loucos sonhos que você estaria ali. Outro toque de mãos: Vai! Você consegue!

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Aqui, me vejo perdida. Não sei o que selecionar, em que devo me focar, o que devo produzir. Estar aqui é assustador. Sei que estou aqui por conta de um desejo e uma capacidade minha. Eu mereço. Mas não sei, é muito inseguro, é um terreno incerto, é como estar pisando em areia. Sim, areia. Não adianta, eu não consigo me livrar dessa metáfora. Aquele é meu lugar.Eu do mar e para o mar. Minha mãe é de lá.

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Eu não aguento mais sonhar com você

É oficial: eu não aguento mais sonhar com você.  No cochilo depois do almoço, no meio da madrugada ou no soninho bom de quando está amanhecendo o dia. Vez ou outra, sonhos sobre você. Outra vez, o sonho é com você. Eu não aguento mais sonhar com você. Inclusive nos sonhos teu sexo faz parte de mim, é em mim, para mim e quando menos percebo é nosso. Eu não aguento mais sonhar com você. E você está em todos os lugares, o tempo quase todo. Mudo meus caminhos pra não te encontrar e dobro esquinas pra não te ver porque eu não aguento mais sonhar com você.

Então vamos fazer assim: suma dos meus sonhos pra não doer mais nem um cadim.

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o fim

Vivo a vida esperando o fim.

Não o fim complicado da própria vida. Mas o fim dos começos simples. O fim das conexões.

Costumava admirar-me com a ideia da infinidade entre os outros.

A amizade que dura anos. O amor que se mantém além das expectativas.

Lindo.

A constância, mesmo que um fardo para muitos, sempre enaltecida, venerada.

Nada mais que idealização, descobri.

Um dia de adeus foi o bastante.

Na verdade, foram vários. Vários adeuses.

E cansei de lutar pela eternidade.

Há muito tempo que aceitei a realidade de que a única presença constante em minha vida é a da minha consciência. Às vezes sussurrando. Às vezes gritando.

Aprendi a viver assim. Sem esperar a continuidade dos laços formados pelo sangue, pela infância, pela coincidência, pelo suor, pelos desejos.

Assim vivo a vida. Esperando o fim.

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Fire is the town

pedra-que-pega-fogoEla correu pela Avenida Ariel e virou à esquerda na Rua Potter e logo viu a cafeteria pegando fogo. Correu desesperada. Ela não sabia porque estava naquele lugar. Reconheceu que aquela era a cafeteria que ela comprava café todas as manhãs para aguentar todas as hipocrisias que teria que enfrentar durante o dia. Quanto mais chegava perto da cafeteria mais fogo tinha.

Ela resolveu mudar o caminho e virar na Rua Indiana à direita. Lá, a livraria pegava fogo. E ela caiu em prantos. Quanto mais chorava, mais fogo tinha. Aquela era a livraria que ela gastava horas procurando os livros que gostava. Ela se sentia num mundo particular ali dentro. Um mundo dela, de alguma forma.

Resolveu voltar e pegar a Rua Cacheada onde o supermercado pegava fogo. Lá, as labaredas de fogo estavam altas. Aquele supermercado era o mesmo que ela frequentava sempre que uma visita chegava em sua casa. Ela sempre ia lá para comprar um lanchinho. Não sabia o que fazer e sentou-se no chão gritando e chorando sem entender o motivo de tanto fogo na cidade. Quanto mais ela chorava e gritava, mais o fogo se aproximava. Ela entrou em pânico quando as chamas chegaram perto dela.

Ela não conseguia ver ninguém por perto. Apesar de saber que nunca estava desamparada. Ela só gritava e chorava. E, quanto mais ela entrava em desespero, mais fogo tinha em sua volta.

Foi aí que num súbito, ela lembrou que tinha que tentar manter a calma pra poder conseguir sair de perto de todas aquelas labaredas sem se machucar. Aos poucos foi se acalmando, respirando profundamente, tentando achar uma solução pra sair dali. Quando, finalmente, se acalmou ela abriu os olhos e viu que todo aquele fogo tinha sumido. Todas aquelas labaredas não existiam mais.

Ela voltou a sorrir. Percebeu que estava rodeada de pessoas. Rostos conhecidos. Eles estavam ali. Eles sempre estiveram. O tempo todo. Ela sentiu falta de alguns rostos que estavam sempre por perto, mas que naquele dia não estavam lá e ficou se perguntando o motivo. Foi então que quatro moças se aproximaram e falaram para ela:

-Não era verdadeiro.

-Por isso eles não estão aqui.

-Não se preocupe. Você não sentirá falta.

-Observe ao seu redor.

Ela ficou atordoada. Não sabia como aquilo tudo tinha acontecido. Alguns rostos ela não sabia porque tinham ido até lá. Mas, no fundo de seu coração percebeu que quem estava ali a queria sempre por perto.

Ela fechou os olhos tentando entender de alguma forma como tudo aquilo aconteceu. O fogo. Os lugares. As lágrimas. As pessoas. Os recados. E, nesse fechar de olhos, foi parar em um lugar muito longe. Se viu rodeada de estranhos que queriam lhe ensinar coisas novas e ela estava disposta a aprender. Ela estava focada em tudo que ensinavam e ao mesmo tempo pensando em tudo que acontecera naquela cidade em chamas.

Então, começou a perceber que aquele fogo era controlado por suas emoções. Ela percebeu que somente ela tinha controle sobre a intensidade dele. Ela percebeu que o que estava fora dela era completamente conectado com seu interior. Ela percebeu que o fogo destrói mas também é luz. Enfim, aos poucos ela foi aprendendo a viver com suas emoções e com o fogo, sabendo que ele sempre seria um elemento que purificaria e reacenderia sua alma.

     -Para Lisbela

 

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Postcard.

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A gente cresce, a vida passa, as coisas mudam, eu bem sei.
Talvez eu precisasse vir mesmo até aqui pra lembrar de como tudo já foi um dia.

Eu lembro do seu sorriso, dos seus olhos de ressaca, do seu amor pela dança e pela música. Lembro de como sempre te achei tão certa e segura de si, e de como os acontecimentos das nossas vidas sempre pareceram estar em sincronia.

E lá vem essa sincronia mais uma vez.

Eu, aqui, na cidade que um dia você já chamou de “seu lugar no mundo”, estou começando a me encontrar e a entender quem sou e a qual lugar pertenço. Ainda não descobri se o achei de fato, mas já entendi que gosto mais de quando você está ao meu lado.

Pois então esse texto veio pra ser um cartão postal. Uma carta. Um chamado. Um pedido.

Preciso do seu sorriso, já que sabemos que sorrisos significam – e eu preciso de significados.

Quero voltar a olhar mais pros seus olhos de ressaca, de cigana oblíqua e dissimulada, porque aprendi que o oceano é tão profundo como nós somos e que suas ressacas são necessárias para nossa evolução. Ainda não descobri o que oblíqua significa, mas descobri que é bom ser um pouco dissimulada.

Necessito do seu amor pela música e sua paixão pela dança. Uma vida sem música é uma vida sem trilha sonora… E precisamos aprender a dançar no nosso ritmo certo.

Sinto falta dos seus conselhos, das suas conversas, de como você sempre disse pra confiar e acreditar. Sinto falta da sua presença. De saber da sua vida e de te contar da minha.

Tu me manques.
Te extraño.
I’m looking forward to meeting you soon.

(também sei ser troglodita).

Para Ismália,
De Lisbela.

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Para e sobre ela

Abriu os búzios:
É Iansã!
Vento, tempestade, brisa, calmaria,ventania
Eparrey
Não, talvez não.
Calma, doce, é água que corre oraieieô mas não mexe com quem tá quieto que o veneno do escorpião sobe
mas é aquário que responde
planeja minuciosamente ou dá a doida e foda-se porque eu posso! Sim, eu posso.
Eu danço, canto, seduzo, deduzo. Quem quer vir que venha não tenho tempo pra deixar passar.

 

A vida é breve o vento traz e leva
Vem pra cá, dança comigo de mar em mar que nas ondas eu vou te levar.
Mas sobre ser leve, eu sei. Doçura, abrigo, colo não há de faltar.
Uma mulher ímpar que não tem qualquer pessoa como seu par.
Inteligência, saber conversar.
À menina vulcão, mulher furacão,
                                                      para Anne

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